Existir é o maior dos absurdos.
Um absurdo tão grande, que morrer é a coisa mais natural que nos acontece e que acontece a tudo que, de um momento para o outro, com uma gratuidade singela, como um sopro aleatório, passa a viver.
Acontece esquecer da morte na medida que se envelhece.
Assim, abrimos mão de ser no tempo e no espaço e abraçamos o peso da vida, como se isso fosse uma grande coisa.
Ora, viver não é existir. Morrer sim, eis um acontecimento.
Contudo, tendemos a deixá-la de lado e tratamos a morte como um agouro indesejado.
Que pena.
Viver com a morte seria tão pleno, tão intenso, mas a estrutura frágil de nosso condicionamento veste a morte de tragédia. Preferimos viver como se nunca fôssemos morrer, acreditamos nisso. E quando morremos, obviamente nos frustramos.
E sim, há quem se fruste com a própria morte. Que maluquice! Mas geralmente apenas morremos. E os outros que lidem com isso!
Mas também morremos um pouco sempre que alguém amado morre, porque, assim como acreditamos que não vamos morrer, cremos que os outros também não irão, não tão cedo!
Àquele que ignora a morte e vive na ilusão distraída da eternidade, esse conceito vazio, só resta o horror da morte estampada na palidez de um corpo alheio.
Ignorar a morte é ignorar a vida. É existir morto. “É não estar presente, nem lugar.”
É não ser aqui, nem aí. Nem quando, nem em momento algum.
Sobretudo, é não assumir a si próprio: ser finito e absurdamente gratuito.
Dei-me conta disso tudo há uns tempos, mas somente hoje, a morte me visitou.
Sorri nervoso. O sorriso dos primeiros encontros, da estranheza que logo se dissipa, tão logo as formalidades se vão.
Ora, que bobagem, és amiga inconfundível.
Dá cá um abraço, sente-se onde quiser, conte-me tudo!
Que a madrugada é longa e o silêncio é precioso.
Não ouso te interromper, anseio por saber.
Mas, quando tiveres terminado, ah… tenho tanto a dizer!
E não me olhe com essa cara, com tua feição quase paternal.
Vinte e oito anos não é tão pouco tempo assim, pra mim, é todo o tempo.
Tivemos todo o tempo, enfim.
Visita
09/10/2011Científicamente comprovado.
15/10/2010Lá pelos altos da minha adolescência, não saberia hoje dizer exatamente quando, a perspectiva de desamparo gerada por meu desligamento de toda e qualquer perspectiva religiosa veio como um murro na cara. De repente não havia mais deus, hierarquias divinas, promessas, nem mesmo alguém para culpar e questionar sua ausência quando algo horrível acontecesse por intermédio de mãos humanas. O que conseqüentemente me igualava a qualquer um dos autores de tais atos, no que tange a liberdade de agir. Logo as orações antes de dormir foram substituídas por reflexões no escuro, olhando para qualquer fresta de luz que adentrasse meu quarto.
Calculo que aí tenha começado grande parte do que me constitui hoje. O desenvolvimento de um senso crítico órfão de sua ingenuidade, do paradigma religioso, dos contos de fada legitimados até então por aqueles que eu respeitava e admirava. A coisa toda era tão mirabolante que o sentimento de carência e confusão logo se tornou em pleno escárnio. Um despeito desafiador ao questionar a fé de quem ousasse falar de deus em minha frente. Uma angústia por romper todas as amarras sagradas e explorar todas as infinitas possibilidades desveladas. Mas esse período logo teve fim e voltei a recolher-me em meus pensamentos sem explorar nenhuma delas em prática. O apolínio em mim falou mais alto e lá estava eu, buscando alternativas racionais para explicar tudo ao meu redor.
Não demorou muito a cair de cabeça em outro paradigma, o científico. Não era exatamente novo porque já convivia com ele, mas não lhe dava ouvidos plenamente pois, afinal, o sagrado era mais forte. Era uma questão de fé e ela não carecia de grandes justificações, ou você tinha ou você não tinha. Eu preferia ter, e deixava a ciência de lado. Mas que paradigma fascinante era o científico. Era mais que uma alternativa, era fato, era o mundo empírico saltando diante de meus olhos. Teorias das mais diversas povoavam meus sonhos enquanto meus próprios sonhos eram questionados numa metalinguagem eufórica por respostas. Elas nunca vieram completamente, mas eram plausíveis as premissas, seus desdobramentos e questionamentos que me davam a sensação de avançar em busca da verdade última das coisas.
Não tardou para que eu começasse a aplicar conhecimentos teóricos em minhas relações, a adolescência afinal havia ficado para trás e entender as razões humanas para determinados atos e posturas era um desafio e tanto. A dicotomia estabelecida na perspectiva sujeito e objeto científico contaminaram-me com o tempo e os tais fatos históricos e axiomas epistemológicos faziam agora parte de mim. Haviam feito de mim um típico sujeito moderno.
E assim foi por muito tempo. Até meu primeiro contato com filosofia da ciência na faculdade. É claro que não foi de pronto, no começo achei toda aquela história de investigação da ciência e seus meios de produção de conhecimento bem enfadonha. Aos poucos as críticas mútuas entre as várias perspectivas científicas, somadas ao senso crítico calejado desde as rupturas na adolescência e afiado pelas experiências vividas nos últimos anos, logo me fizeram parar de acompanhar as investidas das correntes científicas e olhar ao redor, como quem acompanha uma partida de tênis, acompanhando a bola de um lado pro outro e, de repente, pára.
Tirar os holofotes dos resultados científicos e apontar para os meios de produção desse tipo de conhecimento me fez ver que, tanto nas prezadas ciências exatas quanto nas nobres ciências humanas havia algo de muito errado. E desde então, um processo de ruptura, tal qual a ruptura religiosa, começou. Dessa vez, a vítima era o paradigma da ciência moderna que estava a ruir. E ruiu, de modo que hoje, um ano após a primeira e entediante aula de filosofia da ciência, me vejo ironizando a ciência moderna tal como o professor dessas aulas o faz ao dizer que no fim, é tudo historinha, tudo o que fazemos é escolher as que mais nos agradam. E ele tem razão. Não precisa nem ir muito longe.
A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Khun, é um chute no saco àqueles que colocam a ciência à frente de si como uma bandeira epistemológica irrefutável. Basta dizer, nessas poucas linhas, que a ciência trabalha dentro de paradigmas totalmente cerceados por sua visão orientada, com suas teorias remendadas, com seus experimentos empíricos, que nada dizem sobre a experiência e, em casos mais extremos, a ciência deixa de examinar o mundo e volta-se para si, apenas, patetica e infantilmente. Uma brincadeira de adultos, legitimada pela orientação capitalista de uma sociedade que investe bilhões, para depois dizer uns aos outros: “Eu tenho razão ao afirmar seja lá o que for, por mais imbecil que seja, e todos vocês haverão de concordar quando eu terminar dizendo que tudo isso foi científicamente comprovado.”
Escrito por [ Sr. Otimismo ]